Quando eu comecei a vender calçado pela internet, a parte que mais me travou não foi tirar foto nem escrever anúncio. Foi decidir em que regime abrir a empresa. MEI ou Simples Nacional? Todo mundo fala, quase ninguém explica em português.
Eu já fiz essa transição, do MEI pro Simples, e tomei um susto no caminho. Vou contar exatamente onde eu errei, porque foi um erro de conta que custou dinheiro e que dá pra evitar.
Aviso de cara: eu não sou contador. O que eu faço aqui é juntar o que está nas fontes oficiais, somar com o que eu vivi, e traduzir pra linguagem de quem vende em marketplace. Antes de assinar qualquer coisa, conversa com um contador de verdade.
A diferença em uma frase
MEI é uma porta de entrada simplificada dentro do Simples Nacional. Você paga um valor fixo por mês, não importa se faturou R$ 500 ou R$ 6.000. O Simples Nacional cheio, como ME ou EPP, cobra um percentual do que você faturou. Faturou pouco, paga pouco. Faturou muito, paga proporcionalmente.
Ou seja: não são dois mundos separados. O MEI é o degrau mais baixo da mesma escada.
Quanto custa ser MEI em 2026
Esse é o número que interessa. Segundo a tabela publicada no portal Empresas e Negócios do governo, atualizada em janeiro de 2026, o DAS mensal do MEI ficou assim:
- Comércio e indústria (ICMS): R$ 82,05
- Serviços (ISS): R$ 86,05
- Comércio e serviços (ICMS e ISS): R$ 87,05
A maior parte disso é INSS, R$ 81,05, que corresponde a 5% do salário mínimo de R$ 1.621,00 fixado para 2026. O resto é o imposto estadual ou municipal.
Um detalhe que confunde muita gente: por aí você acha gente dizendo R$ 81,05 e gente dizendo R$ 82,05. As duas coisas aparecem na tabela oficial. R$ 81,05 é só a parte do INSS, R$ 82,05 é o total de quem vende produto. Se você vende calçado, roupa ou acessório, o seu número é R$ 82,05.
Dá algo em torno de R$ 985 no ano. É pouco perto do que você paga de comissão de marketplace, e vale comparar com os outros custos que eu levantei no artigo sobre quanto custa começar a vender online.
Quanto custa o Simples Nacional
Aqui não tem valor fixo. Quem vende produto cai no Anexo I, que é o de comércio. Ele tem seis faixas, com alíquota começando em 4% e chegando a 19%.
A primeira faixa vai até R$ 180 mil de faturamento em 12 meses e cobra 4%. O teto do Simples Nacional é R$ 4,8 milhões por ano, com a empresa classificada como microempresa até R$ 360 mil e como empresa de pequeno porte acima disso.
E tem um custo que quase ninguém coloca na conta: no Simples Nacional você precisa de contador. É obrigação prática, não opcional como no MEI. Isso é mais uma mensalidade no seu caixa.
O erro que eu cometi: achar que 4% era pra sempre
Quando eu fiz a mudança do MEI pro Simples, perguntei pro contador quanto eu ia pagar de imposto. Ele respondeu 4%. Eu anotei 4% na cabeça e segui a vida.
O problema é que eu estava raciocinando com lógica de mercado. Na minha cabeça, quanto mais eu vendesse, menos eu deveria pagar proporcionalmente, do mesmo jeito que quem compra em quantidade paga menos por peça. É assim que funciona quase tudo no comércio.
No Brasil é o contrário. Quem vende mais paga uma fatia maior. A tabela é progressiva, e as faixas viram rápido quando o negócio engata.
Hoje eu pago mais de 10%. Não foi uma subida lenta que eu vi chegando, foi surpresa. E surpresa em imposto significa que a margem que eu tinha calculado no preço do produto simplesmente não existia mais.
Se eu pudesse voltar, eu teria colocado 10% de imposto na planilha de custo desde o primeiro dia, mesmo pagando 4%. A diferença eu guardava. Quando a alíquota subisse, não mudaria nada no meu preço.
O limite de R$ 81 mil é o divisor de águas
O MEI pode faturar até R$ 81 mil por ano. Esse valor está congelado desde 2018, quando a Lei Complementar 155/2016 subiu o teto anterior de R$ 60 mil.
Divide por 12 e dá R$ 6.750 por mês. Só que o limite é anual, não mensal. Você pode ter um mês de R$ 12 mil na Black Friday e um mês de R$ 2 mil em fevereiro. O que conta é a soma dos doze.
E aqui vem a parte que quem vende em marketplace precisa entender: conta o valor bruto da venda, não o que caiu na sua conta. Vendeu uma sandália por R$ 100 e o marketplace reteve R$ 20 de comissão? Seu faturamento foi R$ 100, não R$ 80. Quem esquece disso estoura o limite sem perceber. Eu fiz essa conta de comissão em detalhe no artigo sobre as taxas da Shein.
O que acontece se você estourar o limite
Isso está no material de perguntas frequentes do próprio governo, e as duas situações são bem diferentes.
Se você estourou em até 20%, ou seja, faturou até R$ 97.200 no ano, o desenquadramento vale a partir de 1º de janeiro do ano seguinte. Você paga um DAS complementar sobre o excesso e passa a recolher como microempresa no ano que vem. Dá pra organizar.
Se estourou em mais de 20%, passando de R$ 97.200, o desenquadramento é retroativo a 1º de janeiro do ano em que o excesso aconteceu. Na prática, o ano inteiro é recalculado como se você nunca tivesse sido MEI. Aí vem conta pra trás, e é aqui que gente boa toma susto.
Nos dois casos a comunicação do desenquadramento tem prazo. Não é o sistema que faz sozinho por você.
O que muda na prática pra quem vende em marketplace
A primeira coisa é a nota fiscal. Marketplace de produto exige nota, e nota exige CNPJ. Vender só no CPF funciona por um tempo em alguns canais, mas trava você. Plataformas como Shein e TikTok Shop trabalham com vendedor pessoa jurídica, e sem CNPJ várias portas nem abrem. Falei da estrutura desses canais no artigo sobre como vender no TikTok Shop.
A segunda é o crescimento por acidente. Um anúncio que engata pode dobrar seu faturamento em dois meses. Foi mais ou menos o que aconteceu comigo. Se você está no MEI e não acompanha o acumulado, o limite chega antes de você.
A terceira é o custo fixo. No MEI, R$ 82,05 é seu piso mesmo em mês parado. No Simples, mês sem venda é mês sem imposto sobre faturamento, mas o contador continua cobrando.
Quando faz sentido cada um
O MEI costuma fazer sentido pra quem está começando, fatura abaixo de uns R$ 5 mil por mês, trabalha sozinho ou com um funcionário e quer o menor custo fixo possível. É praticamente o único jeito de ter CNPJ pagando menos de R$ 100 por mês.
O Simples Nacional passa a fazer sentido quando o faturamento chega perto do teto de forma consistente, quando você precisa de mais de um funcionário, ou quando sua atividade nem está na lista de ocupações permitidas ao MEI.
O erro mais comum não é escolher errado no começo. É ficar no MEI por comodidade depois que o negócio já cresceu.
Pode ser que o limite mude
Existe uma proposta em tramitação, o PLP 186/26, que prevê subir o teto do MEI para R$ 110 mil em 2027 e R$ 140 mil em 2028, além de permitir contratar até dois funcionários em vez de um.
Reforço: é proposta. Até agora nada foi sancionado, e projeto de lei complementar precisa de maioria absoluta na Câmara e no Senado. Enquanto isso não acontece, o número que vale é R$ 81 mil. Não planeje seu ano com base em lei que ainda não existe.
O que eu faria no seu lugar
Duas coisas, e a primeira é a que me custou dinheiro.
Uma: monte o preço do seu produto já contando com pelo menos 10% de imposto, mesmo que hoje você pague 4% ou os R$ 82,05 fixos do MEI. Se o negócio crescer, e a ideia é que cresça, você vai pagar essa faixa. Melhor descobrir isso na planilha do que na hora de emitir a guia.
Duas: acompanhe o faturamento bruto acumulado dos últimos 12 meses numa planilha simples, todo mês. Não é sobre o mês, é sobre os doze. Quando passar de uns R$ 65 mil, marque conversa com contador. Não pra sair correndo do MEI, mas pra ter a decisão pronta antes de precisar dela.
E, de novo, eu não sou contador. Esse texto serve pra você chegar na conversa sabendo o que perguntar, não pra substituir um profissional. As tabelas oficiais e as regras de desenquadramento estão no Portal do Empreendedor, no gov.br.
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